Dor de cabeça, sono e emoções · Artigo

Enxaqueca em criança: a dor de cabeça que vem com enjoo, palidez e vontade de dormir

A enxaqueca da criança não copia a do adulto. Dura menos, dói dos dois lados da testa, vem com enjoo e palidez, e muitas vezes passa depois de uma soneca. Este artigo mostra como reconhecer, o que pode disparar as crises, o que anotar para a consulta e o que os estudos dizem sobre tratamento e prevenção na infância.

Dra. Naiana Silva · Médica neuropediatra · CRM-MG 65388 · RQE 54889 / 54890

Publicado em · revisão técnica em

Quarto de criança em penumbra no fim da tarde, cortina fechada, cama meio desfeita e copo de água com toalha na mesa de cabeceira

Ela chega da escola quieta, pálida, pedindo para fechar a cortina. Diz que a cabeça dói "na frente, toda". Recusa o lanche, enjoa, às vezes vomita. Dorme uma hora e acorda como se nada tivesse acontecido. Duas semanas depois, a cena se repete, e a família começa a se perguntar se é normal uma criança ter tanta dor de cabeça.

É mais comum do que parece, e tem nome. Uma revisão de 50 estudos populacionais, publicada no Developmental Medicine and Child Neurology, estimou que quase 6 em cada 10 crianças e adolescentes têm dor de cabeça em algum período, e que cerca de 8 em cada 100 têm enxaqueca. O que confunde as famílias é que a enxaqueca da criança tem cara própria, e por isso costuma ser chamada de "dor de barriga nervosa", "virose" ou "manha" antes de receber o nome certo.

Criança tem enxaqueca?

Tem, e desde cedo. A enxaqueca pode aparecer antes dos 5 anos, fica mais frequente na idade escolar e, a partir da adolescência, passa a ser mais comum nas meninas, como acontece nos adultos. Na mesma revisão de 50 estudos, a prevalência de enxaqueca ficou em 7,7 em cada 100 crianças e adolescentes, com pouca variação entre países.

Ela costuma vir de família. Quando a mãe ou o pai têm enxaqueca, a chance de a criança ter é bem maior, e é comum a família só perceber isso na consulta, quando a pergunta é feita de forma direta.

Enxaqueca não é "dor de cabeça forte". É uma condição neurológica com crises que se repetem, com características próprias, e que se trata de um jeito diferente da dor de cabeça comum de cansaço, a chamada cefaleia tensional. Separar as duas é o primeiro passo da avaliação.

Como a enxaqueca da criança é diferente da do adulto?

Em quatro pontos, e todos confundem o diagnóstico. A classificação internacional das dores de cabeça, usada no mundo todo, descreve essas diferenças para a infância:

  • Dura menos. No adulto, uma crise vai de 4 a 72 horas; na criança, pode durar só 2 horas. Uma dor que passa "rápido demais para ser enxaqueca" muitas vezes é enxaqueca.
  • Dói dos dois lados. A dor que o adulto sente de um lado só, na criança costuma ser na testa inteira ou nas duas têmporas. A dor em um lado só da cabeça, em criança pequena, merece mais atenção na avaliação.
  • O corpo fala antes da boca. A criança pequena não diz que a luz incomoda; ela fecha a cortina, se esconde embaixo do cobertor, pede silêncio. Palidez, enjoo, vômito e dor de barriga são frequentes e, às vezes, maiores do que a própria dor de cabeça.
  • O sono resolve. Dormir uma ou duas horas costuma encerrar a crise, o que raramente acontece na cefaleia tensional.

A aura, aquela alteração visual ou de sensibilidade que antecede a dor em parte dos adultos, é menos comum na infância e, quando existe, a criança descreve como "coisas brilhando" ou "a tela embaçada".

Enxaqueca sem dor de cabeça: vômito, dor de barriga e tontura?

Existe, e a classificação internacional dá nome a essas formas: síndromes episódicas que podem estar associadas à enxaqueca. São crises que se repetem, com intervalos sem nenhum sintoma, em crianças que muitas vezes vão desenvolver enxaqueca típica anos depois.

  • Vômitos cíclicos: episódios intensos de vômito que duram horas ou dias, se repetem de forma parecida e somem completamente entre um e outro.
  • Enxaqueca abdominal: dor na barriga, no meio ou ao redor do umbigo, forte o bastante para parar a brincadeira, com palidez e enjoo, durando de 2 a 72 horas, sem nada de errado nos exames do intestino.
  • Vertigem paroxística benigna: crises curtas de tontura em que a criança pequena para, se agarra em alguém ou cai, e volta ao normal em minutos.

Reconhecer essas formas evita a repetição de exames que não encontram nada e dá à família uma explicação que faz sentido. O histórico de enxaqueca na família é a pista mais forte.

O que dispara as crises?

Na infância, os gatilhos mais consistentes são de rotina, não de cardápio. Os que mais aparecem nos diários das famílias:

  • Sono irregular: dormir pouco em dia de semana e demais no fim de semana, ou dormir tarde por causa de tela.
  • Pular refeições, principalmente o café da manhã, e passar muitas horas sem beber água.
  • Estresse escolar: provas, apresentações, conflitos com colegas, começo de ano letivo.
  • Calor, sol forte e esforço físico sem hidratação.
  • Tempo prolongado de tela, em especial à noite.
  • Na adolescência, o período menstrual.

E a comida? Listas de alimentos proibidos circulam muito, com chocolate, queijos e embutidos à frente, mas a evidência para a maioria deles é fraca e muito individual. Tirar tudo de uma vez do prato de uma criança costuma criar ansiedade em torno da comida sem reduzir as crises. O que funciona é descobrir, com o diário, se existe algum gatilho real para aquela criança, e tratar só dele.

Como registrar as crises antes da consulta?

Com um diário simples, por quatro a oito semanas. É o instrumento que mais ajuda o diagnóstico, porque a memória da família guarda a crise mais forte e esquece o padrão. A cada crise, anotar:

  • Data, hora em que começou e quanto tempo durou.
  • Onde doía (um lado, os dois, testa, nuca) e a intensidade de 0 a 10, na palavra da criança.
  • O que veio junto: enjoo, vômito, palidez, incômodo com luz ou barulho, dor de barriga.
  • O que a criança estava fazendo antes, como dormiu na noite anterior e se pulou alguma refeição.
  • Se tomou remédio, qual, a que horas e se aliviou.
  • O que fez a dor passar: dormir, escuro, comer, vomitar.

Pode ser num caderno, numa nota do celular ou num aplicativo. O formato importa menos do que a regularidade. Um diário de um mês conta mais à consulta do que qualquer exame.

Como é a avaliação e quando precisa de exame?

O diagnóstico de enxaqueca é clínico: história detalhada, o diário e o exame neurológico completo. Não existe exame que confirme enxaqueca. A ressonância e a tomografia servem para afastar outras causas, e só são pedidas quando a história ou o exame apontam para isso.

Os sinais que mudam a conduta e pedem exame sem demora são conhecidos: dor que acorda a criança de madrugada ou aparece logo ao despertar, dor que piora a cada semana, dor desencadeada por tosse, esforço ou mudança de posição, qualquer alteração no exame neurológico, mudança clara no padrão de uma dor antiga e dor de cabeça frequente em criança com menos de 6 anos. A lista completa, com o que fazer em cada situação, está na página sobre dor de cabeça na infância.

O eletroencefalograma não faz parte da investigação da dor de cabeça. Ele entra apenas quando há suspeita de crise epiléptica associada, o que é outra história.

Como tratar a crise e como prevenir?

Na crise, o que funciona é agir cedo: ao primeiro sinal, um analgésico comum na dose certa para o peso, água, um lugar escuro e silencioso e, se a criança quiser, dormir. As diretrizes da Academia Americana de Neurologia, de 2019, apontam que o remédio tomado no começo da crise rende mais do que o tomado uma hora depois, e que a escolha do medicamento e da dose é feita em consulta, pela idade e pelo peso.

Há um limite que a família precisa conhecer: analgésico em mais de dois ou três dias por semana, por semanas seguidas, pode causar a dor de cabeça por uso excessivo de medicação, que transforma crises espaçadas em dor quase diária. Quando a criança está precisando de remédio com essa frequência, é hora de rever o plano, não de aumentar a dose.

Na prevenção, a infância tem uma particularidade que os estudos mostraram com clareza. O maior ensaio clínico sobre prevenção de enxaqueca em crianças e adolescentes, publicado no New England Journal of Medicine em 2017 com 361 participantes, comparou os dois remédios preventivos mais usados com placebo. Depois de 24 semanas, 61 em cada 100 dos que receberam placebo tiveram as crises reduzidas pela metade, contra 52 e 55 em cada 100 nos grupos com remédio, e quem tomou remédio teve mais efeitos colaterais. A leitura correta não é "remédio não funciona"; é que, na criança, rotina, acompanhamento e expectativa de melhora pesam muito, e a medicação preventiva fica reservada para quem tem crises frequentes ou incapacitantes, com decisão individual e revisão nos retornos.

O que tem evidência boa em crianças é o conjunto: sono regular todos os dias da semana, refeições em horário, água, atividade física, tela com limite à noite, e, nos casos frequentes, a terapia cognitivo-comportamental voltada para a dor. Num ensaio publicado no JAMA em 2013, crianças com enxaqueca crônica que fizeram essa terapia junto com o remédio tiveram quase o dobro de chance de reduzir as crises pela metade em comparação com as que receberam só o remédio.

Quando procurar avaliação?

Quando qualquer um destes pontos descreve a criança:

  • Dor de cabeça duas vezes por mês ou mais, há mais de três meses.
  • Crises com enjoo, vômito, palidez ou necessidade de ficar no escuro.
  • Vômitos, dor de barriga ou tontura que se repetem em crises e somem entre uma e outra, sem causa encontrada.
  • Faltas à escola ou saídas antecipadas por dor de cabeça.
  • Analgésico em mais de dois dias por semana.
  • Qualquer um dos sinais de alarme da seção sobre exames, que pedem atendimento sem esperar.

A consulta define se é enxaqueca, se é outra dor de cabeça, se há gatilho a corrigir e qual o plano para a crise e para a prevenção. Em Varginha, o atendimento é em consultório particular, com hora marcada.

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Onde a avaliação acontece

Consultório em Varginha

EndereçoAv. Brasil, 226, Vila Pinto, Varginha, MG
HorárioSegunda a sexta, das 08:00 às 18:00, com hora marcada
Telefone e WhatsApp(35) 99720-7777
AtendimentoParticular

Perguntas frequentes sobre enxaqueca em criança

Enxaqueca em criança passa com a idade?

Em parte das crianças as crises diminuem ou somem na adolescência; em outras, continuam na vida adulta, com a cara da enxaqueca do adulto. Não dá para prever quem segue em qual grupo. O que se sabe é que rotina regular e tratamento adequado das crises reduzem a frequência e evitam que a dor vire diária.

Chocolate causa enxaqueca na criança?

Para a maioria das crianças, não há evidência de que cause. Em algumas, um alimento específico aparece no diário como gatilho, e aí vale evitar só ele. Cortar listas inteiras de alimentos sem essa comprovação costuma trazer mais ansiedade do que benefício.

Meu filho precisa fazer ressonância?

Na maioria dos casos, não. O diagnóstico de enxaqueca é clínico. O exame de imagem é pedido quando a história ou o exame neurológico mostram um sinal de alarme, como dor que acorda de madrugada, piora progressiva ou alteração no exame.

Criança pode tomar remédio para enxaqueca?

Pode, com orientação médica, na dose pelo peso e no começo da crise. O que não pode é usar analgésico em mais de dois ou três dias por semana por semanas seguidas, porque isso pode gerar a dor de cabeça por uso excessivo de medicação.

Enxaqueca atrapalha a escola?

Sim, e muito, quando não é tratada: faltas, saídas antecipadas, dificuldade de concentração nos dias de crise. Um plano combinado com a escola, com lugar para a criança descansar no escuro e o remédio orientado pela médica disponível, reduz esse impacto.

As avaliações e acompanhamentos descritos não substituem a consulta presencial. A indicação e o plano terapêutico são definidos individualmente, em consultório, após avaliação neuropediátrica, conforme determina o Conselho Federal de Medicina.

Fontes

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