Epilepsia na infância: investigação e acompanhamento
Da primeira crise ao plano de cuidado da família.
Dra. Naiana Silva · Médica neuropediatra · CRM-MG 65388 · RQE 54889 / 54890
Publicado em · revisão técnica em

A epilepsia é uma condição do cérebro marcada pela tendência a ter crises epilépticas repetidas, sem um fator imediato que as provoque, como febre alta ou queda de açúcar no sangue.
Crises convulsivas em crianças precisam de investigação neurológica completa. Com o diagnóstico e o tratamento adequados, a maioria das pessoas com epilepsia pode ficar sem crises.
O que é epilepsia e o que é uma crise
A crise epiléptica é um evento passageiro causado por uma descarga elétrica excessiva em um grupo de células do cérebro. Nem sempre é a convulsão com o corpo todo se debatendo: pode ser um olhar parado por alguns segundos, abalos em um braço ou uma mudança súbita do comportamento.
O diagnóstico de epilepsia é feito quando a criança tem duas ou mais crises sem fator provocador, com mais de 24 horas de intervalo, quando tem uma crise com alto risco de se repetir ou quando é identificada uma síndrome epiléptica.
Por isso, uma única crise não significa epilepsia: até 10% das pessoas têm uma crise ao longo da vida. A convulsão febril simples, comum entre os 6 meses e os 5 anos, também não é considerada epilepsia.
Quando procurar avaliação
Toda primeira crise sem febre pede avaliação neurológica, mesmo quando a criança volta ao normal logo depois.
Também vale procurar a neuropediatra quando aparecem episódios repetidos de olhar parado, abalos rápidos ao acordar, movimentos estranhos durante o sono ou perda de habilidades que a criança já tinha.
Para quem já tem epilepsia, a consulta é indicada quando as crises continuam, mudam de padrão ou quando a medicação traz efeitos que atrapalham a rotina e a escola.
Um vídeo do episódio, feito com o celular, ajuda muito na consulta, porque a crise raramente acontece na frente do médico.
O que fazer durante uma crise
Mantenha a calma, afaste objetos que possam machucar e proteja a cabeça da criança. Se ela estiver deitada, vire-a de lado, com a boca voltada para o chão. Não coloque nada na boca e não tente segurar os movimentos.
Marque o tempo da crise. Ligue para o SAMU (192) se ela durar mais de 5 minutos, se outra crise vier logo em seguida, se a criança tiver dificuldade para respirar ou para acordar, se houver ferimento, se a crise acontecer na água ou se for a primeira crise.
Depois da crise, é comum a criança ficar sonolenta ou confusa por um tempo. Fique ao lado dela e não ofereça água nem comida até que esteja totalmente acordada. Se houver medicação de resgate prescrita, siga a orientação recebida na consulta.
Como é a investigação
A investigação começa pela história contada pela família e pelo exame neurológico. O que aconteceu antes, durante e depois da crise é a informação mais importante para o diagnóstico.
O eletroencefalograma (EEG) registra a atividade elétrica do cérebro e ajuda a classificar o tipo de crise e o risco de repetição. Um EEG normal não afasta o diagnóstico, e um exame alterado, sozinho, não o confirma.
Quando indicado, a ressonância magnética do crânio procura alterações estruturais. Exames de sangue, avaliações genéticas e outros exames dependem da idade e do tipo de crise, e cada pedido é discutido com a família.
Tratamento e acompanhamento
Os medicamentos anticrise são a base do tratamento. A escolha considera o tipo de crise, a idade e a rotina da criança, e o objetivo é a melhor qualidade de vida possível, com controle das crises e o mínimo de efeitos indesejados.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, até 70% das pessoas com epilepsia podem ficar sem crises com diagnóstico e tratamento adequados.
Quando duas medicações bem indicadas e bem toleradas não controlam as crises, a epilepsia é chamada de farmacorresistente, e outras opções são avaliadas em centros especializados, como a dieta cetogênica e a cirurgia de epilepsia.
O acompanhamento é contínuo: os retornos avaliam a resposta e os efeitos da medicação, orientam a família e a escola sobre o que fazer em caso de crise e cuidam do sono e da segurança no dia a dia. Depois de um período sem crises, a retirada da medicação pode ser discutida em consulta.
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